quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ceará acelera o carro elétrico

Entrevista com Elifas Gurgel do Amaral, engenheiro

Para o engenheiro Elifas Gurgel do Amaral, a semana que passou foi importante para seu projeto de instalar no Ceará uma fábrica de carro elétrico. O governador Cid Gomes prometeu apoio e pediu que os primeiros 100 carros sejam para o Governo do Estado.



Qual é a novidade do carro elétrico que o senhor desenvolveu e pôs para circular nas ruas de Fortaleza?

A novidade do carro elétrico desenvolvido por mim é que ele é baseado na plataforma de um veículo nacional, no caso um Gol Geração IV, utilizando baterias de última geração de íons de lítio, com duração de 10 anos de vida útil.

Qual é a sua intenção como empreendedor?

Minha intenção, inicialmente, é a de fazer com que caiam sobre terra alguns mitos a respeito do veículo elétrico. Acusam-no de não ter desempenho, de não ter autonomia. Primeiramente, é isso. Agora, além de quebrar esses mitos, pretendemos desenvolver no Brasil o veículo elétrico. Podemos ter uma fase inicial que seria a de transformação ou conversão do veículo com motor a explosão - flex, a gasolina e álcool - para um motor elétrico. Então, no caso específico, estamos falando de um carro movido 100% a eletricidade. Este é o objetivo. E, utilizando a plataforma já existente, desenvolver um veículo desde sua origem, na planta, para um modelo inteiramente elétrico.

Sua ideia é ter financiamento do BNB e com incentivos fiscais do Governo do Estado para instalar uma fábrica de carro elétrico aqui no Ceará?

Sim, o projeto prevê o Ceará como pioneiro da Federação brasileira na fabricação do veículo elétrico nacional.

Bem, o Brasil tem 14 fábricas de automóveis, mas nenhuma com tecnologia ou marca genuinamente nacionais. Neste cenário, é possível viabilizar seu sonho?

É verdade. O Brasil hoje não tem nenhuma montadora de veículos automotores inteiramente nacional. Dependemos totalmente da tecnologia de outros países. Somos, pois, usuários de tecnologias que não desenvolvemos. O que desejamos fazer aqui no Ceará é, pois, uma novidade, para o que pretendemos contar com todo o apoio do empresariado e dos órgãos do Governo do Estado.

O senhor necessita de um parceiro privado para dar escala industrial à sua ideia?

Perfeitamente. É importante o aporte financeiro e o apoio de um empresário que vislumbre, efetivamente, o veículo elétrico, que não é o carro do futuro, mas do presente. Países desenvolvidos da Europa e da Ásia e os Estados Unidos já estão com seus projetos bem avançados. Considero que é importante e muito corajosa a posição assumida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que anunciou terça-feira, 27, investimento de recursos da ordem de R$ 600 milhões para alavancar projetos de carros elétricos. O presidente Lula dá um passo gigantesco para o início da indústria nacional de veículos elétricos.

O que o assusta mais? O desafio de implementar um veículo elétrico no Brasil ou o lobby das montadoras de carros com motor a explosão?

Tanto um quanto o outro são dois grandes desafios que enfrentaremos. As montadoras têm todo o seu parque já estabelecido e elas pretenderão ficar o maior tempo que puderem com sua ferramentaria e com suas linhas de produção voltadas e desenvolvidas para os motores a explosão. Mas é importante frisar que a tecnologia do veículo elétrico é muito mais simples do que a de um com motor a explosão, além das vantagens de eficiência energética. Trata-se do melhor uso dos recursos energéticos do País. O Brasil tem uma grande vantagem em relação a outros países, uma vez que sua matriz energética é, do ponto de vista ecológico, muito limpa porque mais de 70% de sua geração são provenientes de usinas hidrelétricas. E, no caso do Ceará, somos abençoados com esse sol maravilhoso e com os ventos que sopram sem parar no seu litoral. Já estamos começando a explorar a energia eólica, ao mesmo tempo em que para a energia solar os projetos já estão avançando, também. Tudo isso conduz para o veículo elétrico.

O que o senhor imagina fazer primeiro?

Hoje (quarta-feira, 28), foi um dia importante para o nosso projeto. O governador Cid Gomes dirigiu o nosso carro elétrico e avaliou muito positivamente o seu desempenho. Acho mesmo que ele se entusiasmou com a performance do carro. Eu e o governador conversamos sobre o projeto, avaliando a possibilidade de estabelecermos no Ceará um piloto com uma quantidade ainda limitada da ordem de 100 veículos. Seria a primeira fase, durante a qual as pessoas tomariam conhecimento do projeto e, ao mesmo tempo, seriam construídos os postos de abastecimento elétrico. Aliás, esses postos, como os de combustíveis, estarão ligados à rede de cartões de crédito, com uma diferença: a despesa será automaticamente informada à Coelce, que a lançará na conta mensal de luz. Será um cartão com um chip especial para que possa ser usado em qualquer lugar do País.

Quanto custa reabastecer as baterias do carro elétrico que o senhor está usando?

Para um percurso da ordem de 150 quilômetros, que é o máximo de autonomia de minha bateria, em torno de R$ 9,50, o que significa mais ou menos 25% do que se pagaria se esse veículo fosse abastecido com alcool ou gasolina.

O governador sugeriu 100 veículos elétricos. Ele quer a encomenda em quanto tempo?

Num espaço de um ano será possível. Vamos apresentar os projetos ao Governo do Estado para viabilizar a execução desse projeto-piloto que produzirá 100 veículos elétricos.

A plataforma será o Gol Geração IV ou qualquer outro modelo de alguma montadora?

Poderá ser qualquer veículo. O Brasil tem outra grande vantagem sobre os demais países, pois aqui nós estamos acostumados com os carros 1.0, mais baratos. Aqui, as pessoas se sentem atendidas na sua necessidade com um carro compacto, com todos os itens de conforto, como ar condicionado e direção hidráulica, e esse veículo elétrico pode vir com todos esses itens com os quais estamos habituados.

Não reduzirá a autonomia?

Sim, mas de modo insignificante, da ordem de 10%.

A bateria traciona motor de potência 2.0?

O motor elétrico tem um torque muito elevado. Significa que, na arrancada, ele tem muita força. Eu retirei do Gol que estou usando o motor 1.0 com 70 HP e coloquei nele um motor elétrico com os mesmos 70 HP. Entretanto, a força, o torque do motor elétrico corresponde ao motor a explosão de 2.0.

O motor elétrico é muito diferente de um motor a explosão?

É menor, mais compacto. Sua carcaça é de aço ou alumínio. Ele tem 30% menos peças do que um veículo movido a motor de combustão. O motor de combustão tem de 200 a 300 partes móveis, enquanto o motor elétrico tem apenas três. O veiculo elétrico não tem sistema de escapamento, não gera fumaça, não tem sistema de injeção de combustível, de circuitos eletrônicos, de ignição; não tem sistema de refrigeração, ou seja, dispensa o uso da água e todas aquelas mangueiras que ressecam e dão problema; não tem correias dentadas de comando de válvulas nem de alternador; não usa qualquer tipo de óleo; não tem filtro de óleo, de gasolina ou de ar; e o mais importante: nada que faz barulho o carro elétrico tem. Bom, não é?

Então, o veículo elétrico é mais leve do que o veículo com motor a explosão?

Bem, 15% a 20% do peso de um veículo elétrico vêm do banco de baterias. Mas, com certeza, o avanço da tecnologia vai, rapidamente, reduzir ainda mais esse peso. No caso do protótipo que estou dirigindo, utilizo 40 células de baterias íon de lítio de 180 amperes/hora, o que representa um peso de 200 quilos. Originalmente, o veículo que estou a dirigir tinha cerca de 950 quilos, então aumentou um pouco. Mas o veículo elétrico será ajustado à necessidade e ao bolso do cidadão usuário. Um veículo com menor autonomia será, naturalmente, mais barato. O peso ideal para um veículo elétrico é da ordem de 700 a 800 quilos.

Quanto custará um carro elétrico?

Estima-se que um veículo elétrico, terá um valor semelhante ao de um veículo convencional aqui no Brasil, com as vantagens de você gastar muito menos para abastecer e ainda contribuir com o meio ambiente. E no Ceará há uma vantagem a mais: o veículo elétrico não paga IPVA. Outros estados também dão essa isenção.

Como estão seus contatos com o BNB?

Na terça-feira, 3, terei uma reunião com a diretoria do Banco do Nordeste. Confio que o BNB financiará o nosso projeto.

Outro sonho cearense
Agora é para valer

Parece um automóvel comum, visto de fora. Ao abrir-se o capô, a surpresa: tudo é diferente no motor do carro elétrico desenvolvido pelo engenheiro cearense Elifas Gurgel do Amaral, que, não faz muito tempo, presidiu a Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel. Há dois anos, com 53 de idade, ele se dedica, exclusivamente, a acelerar seu projeto de produzir, em escala industrial, o que a tecnologia e a prática - aqui e longe daqui - já viabilizaram: um veículo de transporte movido a energia elétrica. Por enquanto, usando suas próprias economias, Elifas já investiu perto de R$ 60 mil para mostrar que é possível, e rápido, implantar uma fábrica de automóveis movidos por baterias de última geração de ions de lítio. O governador do Ceará, Cid Gomes, gostou da ideia e lhe prometeu os incentivos fiscais e a ajuda financeira do Estado para que, dentro de um ano, esteja operando e produzindo, em forma de projeto piloto, a primeira unidade industrial brasileira de veículos elétricos. E o Banco do Nordeste, cujo presidente, Roberto Smith, fez como Cid Gomes: dirigiu o carro elétrico, também está disposto a financiar o piloto do engenheiro Elifas Gurgel do Amaral. Tudo está a indicar que o Ceará terá uma fábrica de automóveis movido a energia elétrica. A Coelce, distribuidora de energia no Estado, torce pelo sucesso.

Egídio Serpa

2 comentários:

Blog da Cidade disse...

Fred,

Nós que estamos envolvidos com carros, sejam antigos ou modernos, esperamos que este seja um projeto sério, e tratado pelo Estado do Ceará e suas importantes autoridades do setor, com a importância que o assunto requer não só para a indústria, como também para a geração de empregos e o crescimento que o setor automobilístico enfrentará daqui pára a frente.

José Eduardo

Nanael Soubaim disse...

José Eduardo, o Elifas é um sujeito sério e engajado, que acredita no que faz e tem uma associação inteira apoiando e assessorando; se o governador não der para trás, a fábrica sai sem dúvida. Espero ver Kombosas serem desviadas do desmanche para rodarem silentes e serelepes pelas vias públicas.